
Os Estados Unidos deram mais um passo na escalada da disputa comercial com o Brasil. O Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) anunciou nesta quarta-feira (23) novas medidas que elevam a carga tarifária sobre parte dos produtos brasileiros, fazendo com que a tributação total possa chegar a 37,5% em alguns casos. A informação foi divulgada pelo g1 nesta quinta-feira, em reportagem publicada há menos de uma hora.
A nova cobrança resulta da combinação da tarifa de 25%, que entrou em vigor nesta semana sobre milhares de produtos brasileiros, com uma tarifa anterior de 12,5% aplicada a determinados itens. Na prática, algumas mercadorias exportadas pelo Brasil passam a enfrentar uma taxação significativamente maior para entrar no mercado norte-americano.
Quais produtos são afetados?
As novas tarifas atingem principalmente produtos industrializados e manufaturados. Entre os setores mais impactados estão:
- Madeira e derivados;
- Móveis;
- Máquinas e equipamentos;
- Equipamentos elétricos;
- Cerâmica;
- Calçados;
- Açúcar.
Por outro lado, alguns dos principais produtos exportados pelo Brasil continuam isentos da nova tarifa adicional, como:
- Café;
- Carne bovina;
- Petróleo;
- Suco de laranja;
- Aeronaves e componentes aeronáuticos.
Essas exceções reduzem parte do impacto sobre as exportações brasileiras, mas diversos segmentos industriais já demonstram preocupação com perda de competitividade no mercado americano.
Impacto bilionário
Estimativas do governo brasileiro apontam que as medidas podem afetar entre 15% e 18% das exportações brasileiras destinadas aos Estados Unidos, representando aproximadamente US$ 7,4 bilhões em vendas externas potencialmente atingidas pelas novas tarifas.
Empresários avaliam que o aumento dos custos pode provocar redução nas encomendas, perda de mercado para concorrentes internacionais e necessidade de buscar novos destinos para as exportações brasileiras.
Governo brasileiro evita retaliação imediata
Apesar da pressão de diversos setores, o governo federal decidiu manter uma postura cautelosa e, por enquanto, não anunciou medidas de retaliação contra os Estados Unidos.
A estratégia brasileira está baseada em três frentes:
- manutenção das negociações diplomáticas;
- ampliação de linhas de crédito para empresas exportadoras;
- busca por novos mercados internacionais.
O vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Geraldo Alckmin, afirmou que uma resposta imediata poderia ampliar o conflito comercial entre os dois países, razão pela qual o governo prefere manter o diálogo aberto.
Disputa pode ganhar novos capítulos
A tensão comercial ainda está longe do fim. O governo norte-americano mantém outras investigações comerciais em andamento e existe a possibilidade de novas tarifas serem anunciadas nos próximos meses, aumentando a pressão sobre setores estratégicos da economia brasileira.
Enquanto isso, o governo brasileiro acompanha os impactos das medidas e trabalha para minimizar os prejuízos aos exportadores, ao mesmo tempo em que busca fortalecer relações comerciais com outros mercados internacionais.
A disputa entre Brasília e Washington entra, assim, em uma nova fase, com efeitos que podem ser sentidos tanto pela indústria quanto pelo agronegócio brasileiro nos próximos meses.
Governo brasileiro classifica medida como “arbitrária” e anuncia reação
Em nota divulgada nesta quinta-feira (23), o governo brasileiro repudiou a decisão dos Estados Unidos de impor uma tarifa adicional de 12,5% sobre produtos nacionais com base na investigação da Seção 301 relacionada ao combate ao trabalho forçado.
Segundo o Itamaraty e os ministérios envolvidos, a medida é “completamente arbitrária e injustificada” e não reflete a realidade das políticas brasileiras de combate ao trabalho escravo contemporâneo.
O governo afirma que, durante a investigação conduzida pelas autoridades norte-americanas, apresentou documentação detalhada sobre a legislação brasileira e as ações de fiscalização realizadas pelo Ministério do Trabalho e Emprego para coibir práticas de trabalho forçado e impedir a importação de produtos obtidos por esse tipo de exploração.
A nota destaca ainda que o Brasil é reconhecido internacionalmente pela atuação nessa área e lembra que o país ratificou todos os principais instrumentos da Organização Internacional do Trabalho (OIT) relacionados ao combate ao trabalho forçado. O governo também afirma que os Estados Unidos aderiram a um número significativamente menor dessas convenções internacionais.
Como resposta, Brasília anunciou que iniciará imediatamente os procedimentos previstos na Lei da Reciprocidade Econômica, aprovada pelo Congresso Nacional, além de levar o caso ao mecanismo de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio (OMC).
“Tendo em vista o caráter completamente arbitrário e injustificado das tarifas anunciadas contra o Brasil, iniciaremos imediatamente os trâmites para acionar os instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade (…) e levaremos o tema ao mecanismo de solução de controvérsias da OMC”, afirma a nota oficial do governo brasileiro.



