
Uma operação da Polícia Civil do Rio Grande do Sul revelou, nesta segunda-feira (29), um dos casos mais graves já investigados envolvendo pacientes oncológicos no Estado.
Batizada de Operação Placebo, a ação apura um suposto esquema criminoso de fraude na compra de medicamentos de alto custo destinados ao tratamento de pacientes com câncer, pagos com recursos públicos obtidos por decisões judiciais.
Ao todo, foram cumpridos 57 mandados de busca e apreensão e um mandado de prisão preventiva, tendo como alvo 15 pessoas e 14 empresas. Entre os investigados estão um médico oncologista, três advogados e empresários. O principal alvo preso é um empresário apontado pela Polícia Civil como articulador do esquema.
Segundo a investigação, o grupo utilizava empresas de fachada para simular concorrência, apresentava orçamentos fraudulentos à Justiça, realizava entregas parciais de medicamentos e também é suspeito de fornecer remédios com indícios de falsificação.
A investigação começou após uma farmacêutica da Santa Casa de São Gabriel identificar irregularidades em um frasco do medicamento Enhertu, utilizado no tratamento de câncer de mama. A embalagem apresentava características incompatíveis com o produto original, como erros de grafia, levantando suspeitas de falsificação.
Conforme a Polícia Civil, 39 pacientes já foram identificados como possíveis vítimas do esquema. Desses, sete morreram durante o tratamento. Até o momento, não há comprovação de que as mortes tenham sido causadas pelos medicamentos investigados, e essa relação ainda será apurada pelas autoridades.
De acordo com o delegado Daniel Severo, responsável pela investigação, há indícios de que um médico encaminhava pacientes para advogados ligados ao grupo. Esses profissionais ajuizavam ações para obtenção dos medicamentos, enquanto empresas vinculadas aos investigados apresentavam orçamentos previamente direcionados para vencer as cotações. Como medida cautelar, a Justiça determinou a suspensão do exercício profissional do médico e de três advogados investigados.
Entre os investigados estão o médico oncologista Fernando Borges da Silva e os advogados Éverson Dornelles de Dornelles, Esther Cowan Kotula e Rita Gabriela Schweickardt Werner. Por determinação judicial, todos tiveram o exercício profissional suspenso de forma cautelar durante o andamento das investigações.
Em nota, a defesa do médico afirmou que ele nega qualquer prática ilícita, está à disposição da Justiça e confia no esclarecimento dos fatos durante a investigação. A defesa de uma das advogadas também informou que sua cliente colaborará com as autoridades. Os demais investigados ainda não haviam se manifestado até a publicação desta reportagem.
Se confirmadas, as irregularidades representam não apenas um possível desvio de recursos públicos, mas uma situação extremamente grave por envolver pacientes em tratamento contra o câncer, que dependem de medicamentos de alto custo para aumentar suas chances de sobrevivência.
A investigação segue em andamento.



